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Cosmogelho

E Maria chorou...

Qual o papel de Maria na redenção?

Um dos mais belos temas artísticos ligados à crucificação de Cristo¹ é a Pietà. Na obra de 1876, de William-Adolphe Bouguereau, Maria (a mãe de Deus²) dirige-se a nós com um olhar quase acusatório, como se nos perscrutasse em silêncio e dissesse: “foi por sua culpa”. Teria Maria pensado isso? Não sei; a Bíblia não o diz. O que ela certamente fez foi segurar em seus braços o corpo do Filho após a crucificação.

Logo voltarei a essa imagem, mas primeiro é importante entender o que as Escrituras revelam sobre ela.

Quem é Maria

Visitação (Lucas 1:26-38)

Maria, como as demais jovens judias de sua época, aguardava a vinda do Messias. Ela era uma virgem desposada com José, da casa de Davi. Certa noite, o anjo Gabriel a visita e a saúda, dizendo: “Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo”. Ao ouvir tais palavras, ela se perturba, refletindo sobre o significado daquela saudação. Diante da perplexidade, o anjo explica que ela daria à luz o Filho do Altíssimo, cujo nome seria Jesus³. O Messias prometido, por quem ela tanto esperava, agora viria a ela como filho.

Sua resposta difere da de Zacarias, que duvidou⁴: “Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?”. Ela indaga sobre o modo como ocorreria, pois, sendo virgem, o fato não tinha precedentes na Palavra — ao contrário de casos de esterilidade, como o de Isabel. Maria não parece se preocupar com o julgamento alheio, mas com a mecânica do milagre.

O anjo esclarece que o Espírito Santo desceria sobre ela e a envolveria com Sua sombra. Assim aprouve ao Pai, mediante o Espírito, conduzir o Filho à encarnação. Maria, então, profere uma das mais belas declarações das Escrituras: “Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra”. Ela se reconhece como serva e submete-se à vontade soberana. Semelhantemente faria Cristo, anos depois, no Getsêmani, ao dizer: “Faça-se a tua vontade” (Mt 26:39).

Encontro com Isabel (Lucas 1:39-45)

Dias após o anúncio, Maria parte para a casa de sua prima, Isabel. Ao saudá-la, Isabel, repleta do Espírito Santo, exclama: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!”. E acrescenta: “Bem-aventurada aquela que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor”.

Aqui, Maria recebe dois títulos: bendita e bem-aventurada. É bendita porque, entre todas, recebeu a graça singular de carregar o Filho de Deus. É bem-aventurada porque creu e acolheu a promessa.

Magnificat (Lucas 1:46-56)

Em resposta, Maria declarou⁵:

“A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou a humildade de sua serva. Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o seu nome…”

Nesta oração, Maria transborda contentamento. Deus a contemplou em sua pequenez e, por isso, as gerações a chamariam de bem-aventurada — não por mérito próprio, mas “porque o Poderoso fez grandes coisas”. Ela enaltece a fidelidade de Deus e Lhe atribui todo o crédito. É importante pontuar: chamá-la de bem-aventurada é um reconhecimento da obra do Senhor nela. Ignorar esse título é ignorar o que o Espírito registrou na Palavra.

Guardava e meditava no coração (Lucas 2)

A mãe de nosso Senhor demonstra essa atitude após o nascimento de Cristo (v. 8-20) e quando Ele se assenta entre os doutores (v. 42-52). O termo bíblico para “meditar” sugere o ato de “juntar peças”. Maria recebia revelações que exigiam reflexão, como o anúncio dos pastores e a afirmação de Cristo sobre os negócios de Seu Pai.

Ela retinha essas palavras e as guardava na memória para nelas refletir. Essa prática atende ao que o Salmo 1 descreve sobre meditar na lei dia e noite, e ao Salmo 119:11 sobre guardar a Palavra no coração para não pecar contra Deus. O coração é o depósito do ensino divino, conforme Provérbios 4:21. O exemplo de Maria mostra a importância de preservar a revelação e submeter o entendimento ao que o Senhor falou, apesar de não (ainda) compreendermos.

Fazei tudo o que ele vos disser (João 2)

Nas bodas de Caná da Galileia, após Maria avisar a Jesus que faltou vinho, Ele lhe responde: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”. Apesar de, hoje, soar estranho, à época não soava. Aqui o Senhor apenas diz que não era o momento de iniciar seu ministério público⁶. Ela, curiosamente, diz aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (e o Senhor, após isso, transforma água em vinho). Antes, vimos que ela “guardava e meditava no coração” as coisas que aconteciam e falavam de seu Filho; parece que isso lhe mostrou algo além sobre Ele, levando-a a confiar na providência de Deus e também a ter fé no seu Filho.

Eis a tua mãe (João 19:25-27)

Enquanto Jesus era crucificado, junto à cruz estavam quatro mulheres (sua mãe; a irmã de sua mãe; Maria, mulher de Clopas; e Maria Madalena) e também João, o discípulo amado. Jesus, vendo João e sua mãe juntos, diz: “Mulher, eis aí teu filho” e ao discípulo: “Eis aí tua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa. Maria via o Salvador sofrer sem nada poder fazer, mas entendendo que ali se cumpria o propósito para o qual ela havia dito sim anos antes; e Cristo, mesmo naquele momento, garante que ela não ficaria sem um filho.

Em oração (Atos 1:14)

Ela aparece novamente na igreja de Atos, em oração unânime com os discípulos, as mulheres e os irmãos de Jesus, aguardando a promessa do Espírito. Isso demonstra que Maria orava e era piedosa, participando ativamente da igreja.

Quem não é Maria

Imaculada conceição

A ideia de que Maria foi preservada do pecado original desde o seu nascimento.

Resposta: a Escritura é categórica ao afirmar que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23), sem abrir exceções para Maria (todavia, o abre para Jesus; vide Hb 4:15). A maior prova de sua natureza humana comum é o seu próprio “cântico”, o Magnificat, onde ela declara: “O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lucas 1:47). Quem não tem pecado não necessita de um Salvador.

Virgindade perpétua

A afirmação de que Maria permaneceu virgem antes, durante e após o nascimento de Jesus.

Resposta: esta é uma imposição de um ideal ascético tardio que nega a santidade do matrimônio bíblico. Mateus 1:25 diz que José não a conheceu “até que” ela deu à luz um filho, o que implica relações normais após o parto. Além disso, as Escrituras citam nominalmente seus filhos e mencionam suas filhas (Mateus 13:55-56). A distinção textual em João 2:12 refuta esse dogma: o texto separa claramente “mãe”, “irmãos” (família biológica) e “discípulos” (família espiritual/seguidores).

Co-redentora e mediadora

Maria cooperaria na salvação e agiria como ponte entre o homem e Deus.

Resposta: essa doutrina fere o cerne do Evangelho. A Bíblia estabelece que “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1 Timóteo 2:5). Atribuir a Maria um papel na redenção ou na intercessão necessária é diminuir a obra perfeita e suficiente de Cristo na cruz. O acesso ao Pai foi aberto pelo véu rasgado de Jesus, não por intermédio de Maria.

Assunção de Maria

A alegação de que Maria foi levada ao céu em corpo e alma sem passar pela morte ou pela corrupção.

Resposta: não existe nenhum registro bíblico ou histórico contemporâneo que suporte essa afirmação. É um dogma puramente fundamentado na tradição humana, proclamado apenas em 1950. O silêncio bíblico sobre o fim da vida de Maria indica que ela, como todos os santos, aguarda a ressurreição no último dia.

Rainha do céu

O título que a eleva a uma posição de autoridade real e divina sobre o universo.

Resposta: na Bíblia, o título “Rainha do Céu” aparece apenas em Jeremias (capítulos 7 e 44) associado a uma divindade pagã que provocava a ira de Deus. No Novo Testamento, toda a autoridade no céu e na terra foi dada a Jesus Cristo (Mateus 28:18). Maria é uma serva⁷ bem-aventurada, mas nunca uma soberana.

Conclusão

A mãe do nosso Senhor nos ensina a sermos piedosos (reunimo-nos em oração), a nos submetermos à vontade de Deus, a nos alegrarmos em Deus, e a meditar e guardar no coração a Sã Doutrina.

Retornemos à pintura. Nas Escrituras, Maria é a serva escolhida; Cristo é o Salvador, Deus e homem. Sendo plenamente homem, nosso Senhor tinha uma mãe humana. É notável o contraste teológico: o Pai Celestial abandona o Filho na cruz⁸ para que a justiça fosse satisfeita; Maria, a mãe terrena, permanece ao lado do Filho que sofre, sem poder intervir, mas compreendendo o peso daquele sacrifício.

Na Pietà de Michelangelo, há uma entrega serena (ela aceita a partida do filho). Mas na de Bouguereau, Maria nos encara. O olhar é um espelho: ela parece nos acusar porque, efetivamente, somos os culpados por aquele corpo inerte em seu colo. Somos convidados a lembrar que fomos nós que levamos Cristo à cruz — sob essa ótica, a expressão que Bouguereau deu a Maria é essencialmente verdadeira.

O choro de Maria nos recorda que nosso Senhor se fez homem e teve uma mãe; foi tentado em tudo como nós, embora sem pecado. Aquele instante foi, simultaneamente, o mais triste e o mais alegre da história. Triste, pois o Justo morreu pelas mãos dos injustos; alegre, pois o Justo morreu em favor dos injustos. Maria chorou a morte do Filho, mas nós, por meio dessa morte, recebemos a Vida.


Bem aventurada é Maria,
Que foi a escolhida,
Pra carregar ao Salvador.\

Predita na antiga profecia,
De que o Senhor viria,
De que a virgem conceberia.\

Tabernáculo da graça,
Que carregava Emanuel,
Querido, vindo do céu.\


¹ Se o segundo mandamento proíbe ou não representar Cristo em uma obra com finalidade artística (não devocional), é objeto de outro estudo.

² Este título é tão verdadeiro quanto dizer que Maria é mãe de Jesus, pois Ele é verdadeiro Deus.

³ A profecia de Miquéias (e Isaías) menciona o nome Emanuel (“Deus conosco”), descrevendo Sua natureza; Jesus é o nome próprio que significa “O Senhor Salva”. Tal nome era comum naquela região, talvez para expressar o fato de Cristo ser comum (na aparência, por exemplo), e isso incluiria seu nome.

⁴ Zacarias é castigado com mudez temporária porque, segundo o anjo (Lc 1:20), não acreditou na mensagem enviada pelo Senhor.

⁵ Embora comumente chamado de “cântico”, o texto bíblico registra que ela “disse” (v. 46).

⁶ A resposta de Cristo pode estar relacionada à transição para Seu ministério público e à submissão ao cronograma divino, e não necessariamente a um desrespeito à mãe.

⁷ Sobre a objeção de que Cristo também foi servo: Ele assumiu a forma de servo (Fl 2:6-7) em Sua humilhação voluntária para cumprir a redenção e nos dar o exemplo, sendo posteriormente exaltado à destra do Pai.

⁸ Jesus, na cruz, cita o salmo 22, dizendo “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste”. É defensável que o abandono ali era real, pois faria parte do sofrimento de Cristo.